Brasil Deveria Entrar na Nova Rota da Seda? Talvez Já Esteja

NOTÍCIA – Os números oficiais impressionam: 70 países participantes, US$ 690 bilhões em investimentos e um longo cinturão conectando o leste asiático à Europa, África e, mais recentemente, à América Latina. Sob vários ângulos, a Nova Rota da Seda, oficialmente Iniciativa Cinturão e Rota, tinha tudo para se tornar o projeto do século, tornando a China um grande centro do comércio internacional. Anunciado em um discurso do líder chinês Xi Jinping no Cazaquistão, segundo David Dollar, membro sênior do John L. Thornton China Center do Brookings Institution, a criação do projeto foi menos uma novidade e mais uma forma de dar coesão a uma série de iniciativas que a China já vinha desenvolvendo desde que começou a internacionalização de companhias nacionais e o fortalecimento de laços diplomáticos estratégicos. Segundo ele, "surpreendentemente, a reação da imprensa ocidental a esse discurso e o destaque que os jornais deram ao termo foram os prováveis fatores a consolidar a iniciativa para os chineses. Já naquela época, era, sem dúvidas, um importante pacote de incentivos econômicos voltados ao desenvolvimento, mas o slogan político ajudou a dar credibilidade". Fonte: Folha de São Paulo.
COMENTÁRIO – Faz sentido para o Brasil se juntar ao pacote bilionário de infraestrutura? Para Dollar, "é sempre possível encontrar referências ao Cinturão e Rota como o coração de uma grande estratégia conectando a Ásia Central à Europa e à África, seja por terra ou pelo mar. Porém, a maior parte dos investimentos chineses em infraestrutura não está concentrada neste corredor. O Brasil e vários países africanos, por exemplo, receberam muito mais dinheiro, mesmo que nem todos estejam oficialmente ligados ao projeto chinês". Pesquisadores dos investimentos estrangeiros no Brasil, os professores Fábio Morosini (UFRGS) e Michelle Ratton (FGV-SP) acompanham há anos o linguajar jurídico dos contratos assinados por sociedades empresárias chinesas. Conduzindo um levantamento sobre a participação da China no setor de energia elétrica brasileiro, eles avaliam que a indiferença quanto a aderir ou não à Iniciativa Cinturão e Rota se dá pelo dinamismo dos acordos selados pelos chineses. Nesse sentido, pode-se dizer que o Brasil já consolidou a posição de principal destino de investimentos chineses na América Latina e maior parceiro comercial do gigante asiático na região, dinâmica que uma negativa à Iniciativa do Cinturão e Rota dificilmente mudaria. Dessa forma, Morosini deixa uma provocação: "será que ainda faz sentido debater se vale se juntar ou não à Iniciativa quando a China já conseguiu entrar no Brasil, digamos assim, utilizando de instrumentos jurídicos tão parecidos?". Fonte: Idem.
